O fim da fome
ou como perder a vontade de viver
Nota prévia: este é um texto que fala sobre o uso de canetas emagrecedoras. Já aviso que não vou entrar na discussão muito necessária sobre o que é saúde e o que é padrão estético. Há outros textos por aí muito bons sobre isso.
Primeiro um pouco de contexto: quem me olha na rua ou numa reunião acho que dificilmente vai me colocar na categoria de pessoas que precisam emagrecer. Sim, é um horror que todos nós, tenhamos na nossa cabeça essa e outras categorias inventadas pela nossa cultura. É um horror, mas é a realidade. Quem é mulher, principalmente, sabe do que estou falando. Mas não apenas um, como vários médicos pelos quais eu passei nos últimos anos me alertaram que eu estava com sobrepeso e uma composição corporal, digamos, mais lipídica. Depois de dez anos tentando emagrecer por conta própria (leia-se com ajuda de nutricionistas, dietas, exercício) e zero sucesso, me rendi aos medicamentos emagrecedores.
A verdade verdadeira é que não foi apenas por sugestão médica. Claro que não. Com quarenta e seis anos de idade minhas pernocas e meu quadril já não entravam nas mesmas calças, meus braços ficavam apertadinhos dentro das minhas mangas de camisa como canelonis bem recheados. Minha vida de restauratrice acontece em meio a comidas deliciosas: croissants quentinhos cheios de manteiga, bolo de cenoura cheio de especiarias e nozes com frosting de cream cheese, tagliatelinis frescos com ragu encorpado de porco, queijos incríveis, carnes ótimas, sobremesas, pães, sanduíches, bom, já deu para entender. Sem falar nos vinhos, nos drinks, nos capuccinos.
É um enorme privilégio, eu sei, mas também uma desgraça quando você precisa seguir uma dieta de 100g de proteína, legume e salada. Não há força de vontade que dê conta de me manter no caminho virtuoso. E olha que eu gosto e sei cozinhar coisas saudáveis. Enfim, tudo isso é uma espécie de justificativa desnecessária. Tomei a injeção e pronto.
O que importa para mim foi o que aconteceu depois e revelou muito sobre a fome, a vontade de viver, o prazer e a meleca que é nossa vida moderna.
A coisa mais impressionante que essa droga faz, de maneira definitiva e um pouco brutal é que a fome desaparece. No começo vivenciei essa ausência com um alívio. Em um cenário onde o que comer, quando e quanto se tornou uma fonte de angústia, não ter que lidar com isso é um respiro apreciado. A verdade é que nosso modo de comer e experienciar a comida mudou muito. Raros são os que tem o luxo de fazer a maioria das suas refeições sentados, na companhia de outras pessoas, com tempo para mastigar e digerir, longe da toxicidade das telas. Junto com isso, temos um ambiente de cada vez maior individualização das necessidades dietéticas: quem não pode comer glúten, quem não consome lactose, quem é vegano.
A refeição partilhada, comunal, caseira, um tesouro talvez ainda usufruído com mais frequência em regiões menos urbanizadas, é um dos pilares da saúde alimentar de uma sociedade.
Em Cozinhar: uma história natural da Transformação, Michael Pollan reforça: “A refeição compartilhada não é algo insignificante. Trata-se de um dos fundamentos da vida em família, o lugar onde as crianças aprendem a arte da conversação e adquirem os hábitos que caracterizam a civilização: repartir, ouvir” (…)“O declínio do hábito de cozinhar em casa coincide com o aumento da incidência da obesidade e de todas as doenças crônicas associadas à alimentação. A ascensão do fast-food e o declínio da comida caseira também abalaram a instituição da refeição compartilhada por nos estimularem a comer coisas diferentes, com pressa e, muitas vezes, sozinhos.”
Comer sozinho está associado com uma baixa diversidade alimentar e maior ingestão de alimentos calóricos, o que favorece o ganho de peso. Além disso, evidências sugerem que comer sozinho pode ter um impacto negativo sobre a saúde mental, favorecendo a manifestação de sintomas depressivos.1
Quando comemos sozinhos, a maior parte de nós, estará, indubitavelmente conectada a alguma tela. Talvez a companhia na hora da comida esteja tão atavicamente impressa nas nossas células que buscamos um companheiro, ainda que virtual, para nos acompanhar no ato de comer. O que a tela faz, no entanto, é distrair tão profundamente nosso cérebro que ele não codifica completamente a experiência da refeição, ignorando sinais de saciedade e satisfação, nos levando a consumir entre 25 e 50% a mais de caloria em uma sentada.2
Outra paisagem desse cenário distópico é a das nossas escolhas alimentares. Até pouco tempo atrás o que vinha parar no nosso prato era ditado majoritariamente pela nossa localização geográfica, clima e cultura. Hoje, numa época de acesso globalizado a inúmeros ingredientes e produtos, industrialização excessiva da comida, diretrizes nutricionais que mudam de ano a ano, influência de grandes jogadores como a BIG FOOD, a BIG PHARMA e a indústria de emagrecimento para citar apenas alguns, decidir o que podemos e devemos comer se tornou um inferno moral e intelectual.
Comer mais proteína para ajudar a construir nosso tão falado patrimônio muscular? Mas e aí faz como para diminuir o consumo de proteína animal que é tão danoso pro planeta? Porque as fontes de proteína vegetal são quase todas carbos e carbo engorda, inflama. E o que dizer do leite de vaca, faz mal ou não faz? e o glúten? será que é ele que me deixa toda estufada? E o açúcar com certeza faz mal, mas qual adoçante pode tomar? Qual não altera o meu índice glicêmico?
Sim, informação demais é uma maldição também. Por isso, quando a fome simplesmente some parece que nos libertamos de um peso. Do dever de comer para viver, ou melhor, do dever de comer bem para viver bem. Junto com a fome desaparece a ansiedade de decidir o almoço, de aceitar ou não aquele bolo de banana ás três da tarde. No meu caso, o vício do açúcar também sumiu. Não havia mais aquele desespero que me dominava em busca de um conforto em forma de doce, todo dia, todo santo dia, mas principalmente e com uma força inenarrável, quando estou cansada, irritada ou triste. Sob o efeito misterioso da canetinha, eu até conseguia comer um doce, mas no final do prato, não existia mais aquela volúpia atormentada de comer mais um, mais dois, mais três, mais oito.
Com o tempo, no entanto, o que era alívio foi se transformando num estranhamento. Comer simplesmente não me chamava nenhuma atenção. Não tinha vontade de devorar um pudim mas também não tinha vontade de comer nada. Na-da. Nem uma carne suculenta, nem uma saladinha bem arranjada. O desaparecimento não só da fome, como do desejo, intrigou minha mente tão propensa à reflexão.
Eu, que sempre derivei imenso prazer da comida, não conseguia mais me animar nem com um belo prato de massa fumegante. Isso começou a me deixar muito triste. Mas porque exatamente isso aconteceu?
Os estudos sobre como a drogas da classe GLP-1 agem no nosso organismo ainda são bastante recentes mas já existe pesquisa o suficiente para sustentar que elas agem diretamente não apenas na fome fisiológica ou homeostática como no desejo hedônico, ou seja, no próprio centro de prazer do cérebro.3
Essa diferença entre fome física e desejo não é novidade e nosso próprio português já a expressa de maneira maravilhosamente sintética e eficiente na expressão juntar a fome com a vontade de comer.
Por algum desleixo ou omissão intencional, a medicina e a nutrição, pouco falam dessa segunda fome, dessa gana que nos faz sonhar com donuts recheados de creme de confeiteiro. Me lembro de uma nutricionista que me atendeu brigar comigo porque eu dizia que tinha fome ainda depois de ingerir sua dieta prescrita para mim. Ela me dizia categoricamente, você não tem fome, não pode ter fome, numa recusa em admitir que comemos muito mais do que apenas nutrientes.
A comida, despida de prazer sensual, ou deliciosidade (ou, como o povo da ciência gosta de falar, palatabilidade) pode alimentar nosso corpo mas não nutre nossos desejos de prazer, tão importantes e necessários quanto a nossa necessidade de vitaminas e energia.
Quando esse centro de prazer foi silenciado de forma química, eu emagreci, facilmente, mas também, a vida ficou um pouco, e depois muito, sem gosto. Para que comer se não há prazer?
Parece que estou exagerando um pouco mas não estou sozinha. O filósofo Epicuro acreditava que “o prazer é o princípio e o fim de uma vida feliz”4. Não o prazer dos excessos, mas o prazer simples e totalmente acessível de se deliciar com um mero pão com manteiga. Despidos dessa capacidade, de apreciar as pequenas (e grandes) oportunidades de prazer que a comida nos proporciona, viramos autômatos para quem a mera energia de subsistir é suficiente.
Não por acaso, dizemos que uma pessoa intensa tem fome de vida. Morder, abocanhar, mastigar e devorar são todos termos com certa conotação sexual e aqui cabe bem o paralelo do comer só para nutrir o corpo e copular só para a reprodução da espécie. Talvez exista alguma vantagem em transar somente para ter filho, comer apenas para energizar o corpo mas eu não sei qual é. A graça da vida, para mim e meu parça Epicuro, se encontra justamente nesses deleites que não são essenciais para nossa sobrevivência mas são indispensáveis para se ter vontade de viver.





Depois de passar minha adolescência e início de juventude na eterna luta entre transtornos alimentares eu decidi plena que jamais tocarei uma caneta emagrecedora. Minha relação com a comida no momento é pautada simplesmente por minha fome e vontade de comer. Sigo regras, sim, como nao comer na frente de telas, ou nao ficar menos de 30min a mesa, mas nenhuma regra de medida de nutrientes e muito menos de horário. Minha solução pra pressão estética foi diminuir meu tempo de Instagram pra 15min ao dia. Ainda é dificil, mas faco tudo por concordar plenamente com esse texto. Querer comer é querer viver, nao há corpo chapado que me de a plenitude de um bom café da manha
Excelente reflexão, Gabriela. Muito boa a referência a Epicuro. Aproveitando também a citação do poema do Galeano, é interessante como as históricas fundadoras do judaísmo e, consequentemente, do cristianismo falavam de um mundo feito para ser aproveitado, saboreado e não apenas útil. Um mundo que não pode ser medido pelo valor nutricional. Até mesmo as restrições a gula eram limitações para permitir ainda mais prazer. A fome e a expectativa de sacia-la!
Fica a impressão que perdemos algo no caminho. É uma época em que as coisas são medidas pela utilidade. Obrigado por trazer essa discussão. É ter fome pela comida e pela vida que nos faz ser quem somos. Seres que desejam. Se me permite, gostaria de deixar a sugestão de uma leitura que fiz recentemente: "Alimento e Fé", de Norman Wirzba.